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Dia Mundial dos Oceanos
Risco ou alívio? A influência das plumas fluviais no branqueamento e doenças de corais em recifes marginais e extremos
Autor: Bráulio A. Santos (Dr. em Ciências pela Universidad Nacional Autónoma de México, Prof. da Universidade Federal da Paraíba e coord. do Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação (LEAC/UFPB-JP)
As mudanças climáticas, impulsionadas pela atividade humana, estão reconfigurando ecossistemas em escala global, sendo os recifes de coral um dos exemplos mais emblemáticos dessa vulnerabilidade. O estresse térmico, manifestado por meio de ondas de calor marinhas, tem provocado eventos de branqueamento em massa, ameaçando a biodiversidade e as funções ecológicas desses ambientes. Nesse cenário, os chamados recifes marginais ou extremos — caracterizados por condições atípicas como alta turbidez, sedimentação e flutuações de nutrientes — ganharam atenção por poderem atuar como possíveis refúgios climáticos.
No Atlântico Sul, especialmente na costa brasileira, as comunidades de corais são adaptadas a águas turvas e apresentam alto grau de endemismo. Embora se saiba que plumas de rios podem afetar a saúde dos corais, pouco se estudou sobre sua influência durante eventos globais de branqueamento em ambientes de recifes turvos. O estudo busca preencher essa lacuna ao investigar como a proximidade de uma pluma fluvial (Rio Paraíba) e o tamanho das colônias influenciam a prevalência e a extensão do branqueamento e de doenças no coral construtor de recifes Siderastrea stellata durante o evento global de branqueamento de 2024.
Materiais e Métodos
A pesquisa foi realizada em recifes de águas turvas na costa leste do estado da Paraíba, Brasil. Foram selecionados três locais com diferentes níveis de influência da pluma do Rio Paraíba:
• NR (Near River - Próximo ao Rio): Localizado em Lucena, com alta influência da pluma e maior turbidez.
• MR (Mid-distance - Distância Média): Recifes de Areia Vermelha, com influência intermediária.
• FR (Far from River - Longe do Rio): Recifes do Bessa, com menor influência da pluma.
O trabalho de campo ocorreu entre março e abril de 2024, coincidindo com o pico do quarto evento global de branqueamento e o final da estação seca regional. Utilizando mergulho autônomo (SCUBA), os pesquisadores fotografaram colônias de corais ao longo de transectos de 20 metros em profundidades rasas (< 3 m).
As análises focaram na espécie Siderastrea stellata, que dominou a comunidade (96% das colônias registradas). Foram medidos dois parâmetros principais para branqueamento e doenças:
1. Prevalência: Presença ou ausência do sinal na colônia.
2. Extensão: Proporção da área da colônia afetada em relação ao seu tamanho total.
O processamento das imagens foi feito via software ImageJ, e os dados foram analisados através de modelos lineares generalizados mistos Bayesianos para testar as relações entre a pluma, o tamanho da colônia e a saúde do coral.
Resultados e Conclusão
Resultados sobre Branqueamento: Os achados revelaram que a influência moderada da pluma (site MR) atuou como um fator de proteção, reduzindo a probabilidade de branqueamento para cerca de 9%, enquanto nos sites NR e FR as probabilidades foram significativamente maiores (51% e 47%, respectivamente). Isso sugere que a turbidez intermediária pode atenuar o estresse luminoso sobre os simbiontes do coral. No entanto, uma vez que o branqueamento ocorria, a extensão do dano era muito maior perto da foz do rio (72% da área da colônia) do que longe dela (44%). Isso indica que, embora a pluma possa atrasar o início do branqueamento, o excesso de sedimentação agrava a severidade do processo após o seu início.
Resultados sobre Doenças e Tamanho da Colônia: A prevalência de doenças foi baixa (14,3% no total) e não apresentou variações significativas entre os locais, sugerindo que a pluma fluvial não foi o principal motor para o surgimento de patologias durante o evento térmico. Quanto ao tamanho das colônias, observou-se que colônias maiores foram menos propensas a branquear (menor prevalência), possivelmente devido a maiores reservas de energia. Por outro lado, colônias maiores mostraram uma maior prevalência de doenças, provavelmente devido à sua maior área de superfície para colonização por patógenos.
Conclusão: O estudo conclui que existe uma interação complexa entre as condições ambientais e a saúde dos corais. A turbidez moderada pode oferecer um "alívio" temporário contra o branqueamento ao reduzir o estresse luminoso, seguindo a hipótese do distúrbio intermediário. Contudo, o "risco" se manifesta na maior extensão do branqueamento em áreas sob influência extrema da pluma, onde o estresse por sedimentação excede o limiar adaptativo dos corais.
Esses resultados ressaltam a importância de conservar colônias grandes e monitorar a qualidade da água e o manejo de sedimentos em áreas costeiras, especialmente frente ao aumento da frequência de ondas de calor marinhas devido às mudanças climáticas. O estudo alerta que a generalização desses dados deve ser feita com cautela para outros tipos de recifes, visto que os resultados se referem a um ambiente específico dominado por Siderastrea stellata.
O artigo completo está disponível aqui: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0025326X25012172?via%3Dihub#ac0005
O artigo teve a participação também de:
- Juliano Morais (Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação, Departamento de Sistemática e Ecologia, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade Federal da Paraíba)
- Patrícia M. Almeida (Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação, Departamento de Sistemática e Ecologia, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade Federal da Paraíba)
- Camile D. Avelino (Laboratório de Biologia Marinha, Departamento de Biologia, Universidade Estadual da Paraíba)
- Maria Clarice A. Souza (Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação, Departamento de Sistemática e Ecologia, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade Federal da Paraíba)
- Aiara P. L. R. Cardoso (Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação, Departamento de Sistemática e Ecologia, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade Federal da Paraíba, Cidade Universitária)
- Anne L.A.R. Gurgel (Instituto de Ciências Do Mar (LABOMAR), Universidade Federal Do Ceará (UFC)
- Marcelo Oliveira Soares (Instituto de Ciências Do Mar (LABOMAR), Universidade Federal Do Ceará (UFC)
Resumo do Currículo
Sou biólogo, doutor em Ciências pela Universidad Nacional Autónoma de México (2011) e professor da Universidade Federal da Paraíba (campus João Pessoa) desde 2012, onde coordeno o Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação (LEAC). Tenho atuado como docente e orientador nos cursos de graduação em Turismo, Engenharia Ambiental e Ciências Biológicas, bem como nos Programas de Pós-Graduação em Biodiversidade (PPGBio) e Ciências Biológicas-Zoologia (PPGCB). Sou sócio-fundador e conselheiro do Instituto Parahyba de Sustentabilidade (IPAS) e coordenador da base ecossistêmica do Planejamento Espacial Marinho do Nordeste (PEM NE). Participo das redes internacionais de pesquisa IntegraMAR, REMAR-BRAS, 2ndFor, DroughtNet e HerbVar. Tenho grande interesse pelo exercício da docência nos níveis de graduação e pós-graduação nas áreas de ecologia e conservação, bem como pela popularização do conhecimento através da divulgação científica. Minhas pesquisas buscam entender como comunidades biológicas respondem a perturbações humanas em diferentes escalas espaciais e temporais, tanto em sistemas terrestres quanto marinhos. Também tenho interesse em gerar conhecimento técnico-científico que sirva de subsídio para a formulação e implementação de políticas públicas conservacionistas. Email: braulio@dse.ufpb.br