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Dia Mundial dos Oceanos

Risco ou alívio? A influência das plumas fluviais no branqueamento e doenças de corais em recifes marginais e extremos

publicado: 08/06/2026 08h00, última modificação: 08/06/2026 08h06
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Autor: Bráulio A. Santos (Dr. em Ciências pela Universidad Nacional Autónoma de México, Prof. da Universidade Federal da Paraíba e coord. do Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação (LEAC/UFPB-JP)


As mudanças climáticas, impulsionadas pela atividade humana, estão reconfigurando ecossistemas em escala global, sendo os recifes de coral um dos exemplos mais emblemáticos dessa vulnerabilidade. O estresse térmico, manifestado por meio de ondas de calor marinhas, tem provocado eventos de branqueamento em massa, ameaçando a biodiversidade e as funções ecológicas desses ambientes. Nesse cenário, os chamados recifes marginais ou extremos — caracterizados por condições atípicas como alta turbidez, sedimentação e flutuações de nutrientes — ganharam atenção por poderem atuar como possíveis refúgios climáticos.

No Atlântico Sul, especialmente na costa brasileira, as comunidades de corais são adaptadas a águas turvas e apresentam alto grau de endemismo. Embora se saiba que plumas de rios podem afetar a saúde dos corais, pouco se estudou sobre sua influência durante eventos globais de branqueamento em ambientes de recifes turvos. O estudo busca preencher essa lacuna ao investigar como a proximidade de uma pluma fluvial (Rio Paraíba) e o tamanho das colônias influenciam a prevalência e a extensão do branqueamento e de doenças no coral construtor de recifes Siderastrea stellata durante o evento global de branqueamento de 2024.

Materiais e Métodos
A pesquisa foi realizada em recifes de águas turvas na costa leste do estado da Paraíba, Brasil. Foram selecionados três locais com diferentes níveis de influência da pluma do Rio Paraíba:
• NR (Near River - Próximo ao Rio): Localizado em Lucena, com alta influência da pluma e maior turbidez.
• MR (Mid-distance - Distância Média): Recifes de Areia Vermelha, com influência intermediária.
• FR (Far from River - Longe do Rio): Recifes do Bessa, com menor influência da pluma.

O trabalho de campo ocorreu entre março e abril de 2024, coincidindo com o pico do quarto evento global de branqueamento e o final da estação seca regional. Utilizando mergulho autônomo (SCUBA), os pesquisadores fotografaram colônias de corais ao longo de transectos de 20 metros em profundidades rasas (< 3 m).

As análises focaram na espécie Siderastrea stellata, que dominou a comunidade (96% das colônias registradas). Foram medidos dois parâmetros principais para branqueamento e doenças:
1. Prevalência: Presença ou ausência do sinal na colônia.
2. Extensão: Proporção da área da colônia afetada em relação ao seu tamanho total.

O processamento das imagens foi feito via software ImageJ, e os dados foram analisados através de modelos lineares generalizados mistos Bayesianos para testar as relações entre a pluma, o tamanho da colônia e a saúde do coral.

Resultados e Conclusão

Resultados sobre Branqueamento: Os achados revelaram que a influência moderada da pluma (site MR) atuou como um fator de proteção, reduzindo a probabilidade de branqueamento para cerca de 9%, enquanto nos sites NR e FR as probabilidades foram significativamente maiores (51% e 47%, respectivamente). Isso sugere que a turbidez intermediária pode atenuar o estresse luminoso sobre os simbiontes do coral. No entanto, uma vez que o branqueamento ocorria, a extensão do dano era muito maior perto da foz do rio (72% da área da colônia) do que longe dela (44%). Isso indica que, embora a pluma possa atrasar o início do branqueamento, o excesso de sedimentação agrava a severidade do processo após o seu início.

Resultados sobre Doenças e Tamanho da Colônia: A prevalência de doenças foi baixa (14,3% no total) e não apresentou variações significativas entre os locais, sugerindo que a pluma fluvial não foi o principal motor para o surgimento de patologias durante o evento térmico. Quanto ao tamanho das colônias, observou-se que colônias maiores foram menos propensas a branquear (menor prevalência), possivelmente devido a maiores reservas de energia. Por outro lado, colônias maiores mostraram uma maior prevalência de doenças, provavelmente devido à sua maior área de superfície para colonização por patógenos.

Conclusão: O estudo conclui que existe uma interação complexa entre as condições ambientais e a saúde dos corais. A turbidez moderada pode oferecer um "alívio" temporário contra o branqueamento ao reduzir o estresse luminoso, seguindo a hipótese do distúrbio intermediário. Contudo, o "risco" se manifesta na maior extensão do branqueamento em áreas sob influência extrema da pluma, onde o estresse por sedimentação excede o limiar adaptativo dos corais.

Esses resultados ressaltam a importância de conservar colônias grandes e monitorar a qualidade da água e o manejo de sedimentos em áreas costeiras, especialmente frente ao aumento da frequência de ondas de calor marinhas devido às mudanças climáticas. O estudo alerta que a generalização desses dados deve ser feita com cautela para outros tipos de recifes, visto que os resultados se referem a um ambiente específico dominado por Siderastrea stellata.

O artigo completo está disponível aqui: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0025326X25012172?via%3Dihub#ac0005

O artigo teve a participação também de:

- Juliano Morais (Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação, Departamento de Sistemática e Ecologia, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade Federal da Paraíba)

- Patrícia M. Almeida (Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação, Departamento de Sistemática e Ecologia, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade Federal da Paraíba)

- Camile D. Avelino (Laboratório de Biologia Marinha, Departamento de Biologia, Universidade Estadual da Paraíba)

- Maria Clarice A. Souza (Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação, Departamento de Sistemática e Ecologia, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade Federal da Paraíba)

- Aiara P. L. R. Cardoso (Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação, Departamento de Sistemática e Ecologia, Centro de Ciências Exatas e da Natureza, Universidade Federal da Paraíba, Cidade Universitária)

Anne L.A.R. Gurgel (Instituto de Ciências Do Mar (LABOMAR), Universidade Federal Do Ceará (UFC)

Marcelo Oliveira Soares (Instituto de Ciências Do Mar (LABOMAR), Universidade Federal Do Ceará (UFC)

Resumo do Currículo

Sou biólogo, doutor em Ciências pela Universidad Nacional Autónoma de México (2011) e professor da Universidade Federal da Paraíba (campus João Pessoa) desde 2012, onde coordeno o Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação (LEAC). Tenho atuado como docente e orientador nos cursos de graduação em Turismo, Engenharia Ambiental e Ciências Biológicas, bem como nos Programas de Pós-Graduação em Biodiversidade (PPGBio) e Ciências Biológicas-Zoologia (PPGCB). Sou sócio-fundador e conselheiro do Instituto Parahyba de Sustentabilidade (IPAS) e coordenador da base ecossistêmica do Planejamento Espacial Marinho do Nordeste (PEM NE). Participo das redes internacionais de pesquisa IntegraMAR, REMAR-BRAS, 2ndFor, DroughtNet e HerbVar. Tenho grande interesse pelo exercício da docência nos níveis de graduação e pós-graduação nas áreas de ecologia e conservação, bem como pela popularização do conhecimento através da divulgação científica. Minhas pesquisas buscam entender como comunidades biológicas respondem a perturbações humanas em diferentes escalas espaciais e temporais, tanto em sistemas terrestres quanto marinhos. Também tenho interesse em gerar conhecimento técnico-científico que sirva de subsídio para a formulação e implementação de políticas públicas conservacionistas. Email: braulio@dse.ufpb.br