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"Reconhecer, respeitar e restaurar": No Dia Mundial de Combate à Desertificação, ciência paraibana mostra caminhos para proteger o semiárido

publicado: 17/06/2026 12h17, última modificação: 17/06/2026 13h40
Pesquisadores da UFCG e do INSA transformam dados sobre clima, solo e vegetação em estratégias de prevenção e recuperação ambiental
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Exemplo de imagem em desertificação. Foto: CTERSA.
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Oficina realizada no INSA sobre Mercado de carbono no semiárido.jpeg
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Em alguns lugares, resistência é uma palavra que brota do próprio chão. Afinal, a terra também tem memória e registra, em silêncio e sem que percebamos, as marcas deixadas pelo tempo, pelo clima e pelas ações humanas. Esses sinais não chegam de forma repentina, nem costumam ganhar destaque nas manchetes do dia a dia, mas sim lentamente, alterando a paisagem, afetando a disponibilidade de água e a permanência das pessoas em seus territórios. Quando essas marcas finalmente se tornam evidentes, muitas vezes parte dos danos já está consolidada.

No semiárido brasileiro, onde a relação entre o homem e a terra é marcada pela adaptação e pela resistência, compreender esses processos significa, também, preservar o bioma e tornar a vida das pessoas que povoam esses locais mais sustentáveis. No Dia Mundial de Combate à Desertificação e a Seca (17/06), às pesquisas desenvolvidas na Paraíba pelo Observatório da Caatinga e Desertificação (OCA) lança luz sobre o que se pode fazer para entender cenários como esse e oferecer respostas baseadas em evidências científicas.

A discussão ganha ainda mais relevância diante do tema escolhido pela Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD) para marcar a data neste ano: "Reconhecer, respeitar e restaurar". A mensagem destaca que o combate à desertificação depende não apenas da recuperação ambiental, mas também do fortalecimento das comunidades que vivem nos territórios afetados e da valorização dos conhecimentos locais, princípios que dialogam diretamente com as pesquisas desenvolvidas pelo OCA no semiárido brasileiro.

O Observatório da Caatinga e Desertificação é uma iniciativa da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e do Instituto Nacional do Semiárido (INSA), coordenado pelo professor John Cunha, do Centro de Desenvolvimento Sustentável do Semiárido (CDSA/UFCG), e pelo pesquisador Aldrin Perez, Representante Científico Brasileiro da UNCCD no INSA. Sediado em Campina Grande (PB), o grupo reúne especialistas que transformam informações sobre o clima, solo e vegetação em ferramentas capazes de orientar políticas públicas, identificar áreas mais vulneráveis e apoiar estratégias de prevenção e recuperação ambiental.

Há quinze anos, os pesquisadores se debruçam no monitoramento da desertificação no bioma Caatinga, buscando consolidar e ampliar a base técnico-científica de pesquisa sobre processos de desertificação, mudanças climáticas, modelagem socioeconômica e ambiental, e subsidiar a criação de políticas públicas e modelos de utilização que promovam a conservação e a sustentabilidade dos recursos naturais.

Para o professor John Cunha, compreender a desertificação exige olhar além das imagens mais extremas da degradação ambiental. Segundo ele, o processo costuma ser silencioso e gradual, manifestando-se muito antes de transformar uma paisagem em um cenário completamente árido.
“A desertificação vem da perspectiva do empobrecimento, da perda da capacidade produtiva do solo. Muitas vezes a gente fica buscando uma imagem que seja impactante, como uma área sem vegetação alguma para dizer que aquilo é desertificação, mas a perda progressiva de gerar, manter uma produção vigorosa, seja porque tem menos árvores, menos diversidade… esse local já está em desertificação”, explica.

Exemplo de imagem em desertificação. Foto: CTERSA.

O pesquisador ressalta ainda que desertificação e seca não são sinônimos, embora estejam frequentemente associadas. “A seca é quando a gente tem uma quantidade menor de água disponível do que era esperado”, afirma. Já a desertificação representa um processo mais amplo e persistente de degradação ambiental, capaz de comprometer a fertilidade do solo, a biodiversidade e a capacidade produtiva dos territórios.

É para identificar esses sinais antes que os danos se tornem irreversíveis que o OCA desenvolve pesquisas voltadas ao monitoramento contínuo do semiárido. Para isso, o observatório atua em seis eixos principais: Modelagem Ambiental, Climática e Hidrológica; Mapeamento da Desertificação e Secas; Avaliação dos Serviços Ecossistêmicos; Desenvolvimento de Plataformas Computacionais; Apoio ao Planejamento e à gestão ambiental.

 

Exemplos dessa atuação podem ser observados em projetos que vão desde o desenvolvimento de sistemas de monitoramento até o apoio à formulação de políticas públicas voltadas para o semiárido. Um dos destaques é a construção de um mapa inédito da degradação das terras no Brasil. Desenvolvido pelo OCA e publicado em revista científica internacional, o índice permite identificar não apenas onde ocorre a degradação ambiental, mas também medir sua intensidade. A ferramenta oferece um retrato mais detalhado do fenômeno do que os indicadores tradicionalmente utilizados e revelou que, entre 2001 e 2021, o país perdeu áreas conservadas equivalentes a vários estados brasileiros.

Outra iniciativa de impacto nacional é o Sistema de Alerta Precoce de Seca e Desertificação, desenvolvido para o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. A plataforma integra informações produzidas por instituições como Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), permitindo identificar com antecedência municípios sob risco de seca e desertificação. Com isso, gestores públicos podem planejar ações preventivas antes que os impactos se agravem.

As informações e dados produzidos pelo OCA chegam até o poder público tanto de forma indireta, por meio do Plano Nacional construído pelo observatório, que contém diagnósticos consumidos pela Comissão Nacional do Combate à Desertificação, como também de forma direta. “O Ministério do Meio Ambiente também tem nos demandado diretamente, com questionamentos mais específicos, onde a gente ajuda em algumas ações com encomendas diretas”, compartilhou. Uma dessas demandas veio através do projeto Reecatingar. Nessa atividade, com base em critérios técnicos e indicadores ambientais, a equipe contribui para a seleção de municípios prioritários em programas federais de recuperação de áreas degradadas. A iniciativa busca restaurar áreas da Caatinga e fortalecer a capacidade produtiva dos territórios mais vulneráveis, direcionando recursos públicos para localidades onde eles podem gerar maior impacto socioambiental.

Além das ações voltadas ao planejamento governamental, o observatório acompanha e avalia tecnologias sociais desenvolvidas para fortalecer a convivência com o semiárido. Entre elas estão soluções de baixo custo voltadas à agricultura familiar e às comunidades tradicionais, como sistemas de captação e armazenamento de água, práticas sustentáveis de manejo da terra e iniciativas relacionadas ao carbono comunitário. Essas experiências demonstram que a adaptação às condições climáticas da região pode ser construída a partir do diálogo entre conhecimento científico e saberes locais.

A relevância deste trabalho torna-se ainda mais evidente diante da dimensão do desafio. Atualmente, cerca de 18% do território brasileiro está sujeito à desertificação, afetando aproximadamente 39 milhões de pessoas. Mais do que uma questão ambiental, trata-se de um fenômeno que impacta a produção de alimentos, a disponibilidade de água, a geração de renda e a permanência das populações em seus territórios.

Os avanços alcançados pelo observatório também estão inseridos em um ecossistema mais amplo de fortalecimento da ciência no semiárido. Ao longo de sua trajetória, o grupo contou com apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq), especialmente nos primeiros momentos de estruturação das pesquisas. “No primeiro projeto, tivemos recursos que ajudaram a construir parte da infraestrutura básica necessária para a pesquisa, fundamental para consolidar as bases que permitiram o desenvolvimento dos trabalhos realizados atualmente”, explica o coordenador. Atualmente, ele também integra o Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD-Ripa), iniciativa financiada pelo Governo do Estado, através da Fapesq e Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties), que contribui para fortalecer o ambiente científico no qual o observatório está inserido.

Para John, para que o Brasil avance com ainda mais efetividade no combate à desertificação, é preciso que o olhar sobre o problema seja mais amplo e integrado. “A gente tem visto o problema da desertificação sendo colocado puramente como uma questão ambiental, e não é. Quando analisamos, vemos que os mesmos locais que têm frequência recorrente de seca, que estão ficando mais áridos e mais degradados, são os locais em que a gente vê também maior vulnerabilidade social. As políticas devem ser cada vez mais integradas, pois, se estão no mesmo local, indicam que têm as mesmas raízes. Não podemos trabalhar de forma isolada”, conclui.

Em um cenário marcado pelas mudanças climáticas e pelo avanço da degradação ambiental, iniciativas como o Observatório da Caatinga e Desertificação mostram que compreender o problema é o primeiro passo para enfrentá-lo. Mais do que produzir diagnósticos, os pesquisadores transformam dados em ferramentas capazes de orientar decisões, proteger territórios e fortalecer a convivência sustentável com o semiárido brasileiro.

Texto: Nathália Aguiar

Fotos: Arquivo OCA, CTERSA, INSA e Carolina Brito