Notícias

Projeto Amazônia+10

Pesquisa revela como aquecimento global pode levar à extinção de lagarto na Amazônia e favorecer sua expansão na Mata Atlântica

publicado: 27/05/2026 08h32, última modificação: 27/05/2026 10h54
Isso indica ampla tolerância térmica e mecanismos fisiológicos favoráveis à sobrevivência em ambientes quentes
1 | 7
Lagarto Cnemidophorus cryptus. Foto: Daniel Mesquita
2 | 7
Crédito da foto: Daniel Mesquita
3 | 7
Crédito da foto: Daniel Mesquita
4 | 7
Coord. da pesquisa na PB, Daniel Mesquita. Foto: Arquivo do projeto
5 | 7
Crédito da Foto: Arquivo do projeto
6 | 7
Crédito da foto: Daniel Mesquita
7 | 7
Crédito da Foto: Arquivo do projeto
Lagarto Cnemidophorus cryptus. Foto: Daniel Mesquita
Crédito da foto: Daniel Mesquita
Crédito da foto: Daniel Mesquita
Coord. da pesquisa na PB, Daniel Mesquita. Foto: Arquivo do projeto
Equipe em coleta na mata. Crédito da Foto: Arquivo do projeto
Equipe.jpeg
Crédito da Foto: Arquivo do projeto

No Dia Nacional da Mata Atlântica (27/05), uma pesquisa coordenada pelo professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Daniel Oliveira Mesquita, chama atenção para os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade brasileira. O estudo investigou como o aquecimento global pode afetar a distribuição do lagarto Cnemidophorus cryptus, espécie encontrada na Amazônia e recentemente registrada também em áreas da Mata Atlântica. A pesquisa é apoiada pelo Governo da Paraíba, por meio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq-PB), no âmbito da iniciativa Amazônia+10, e reúne pesquisadores de cinco estados brasileiros para compreender como anfíbios e répteis respondem às mudanças ambientais e climáticas.

Com investimento total de R$ 1.499.375,44, o projeto é coordenado nacionalmente pela pesquisadora Fernanda de Pinho Werneck, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), no Amazonas, e conta com pesquisadores responsáveis em diferentes estados: Daniel Oliveira Mesquita, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), na Paraíba; Fabricius Maia Chaves Bicalho Domingos, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no Paraná; Tiana Kohlsdorf, da Universidade de São Paulo (USP), em São Paulo; e Thiago Costa Gonçalves Portelinha, da Universidade Federal do Tocantins (UFT), no Tocantins.

O estudo combina dados ecofisiológicos, que investigam a relação entre organismo e ambiente, com modelagem climática para prever como a espécie pode responder ao aumento das temperaturas nas próximas décadas. Segundo a Profa. Fernanda Werneck, os resultados mostram que o Cnemidophorus cryptus apresenta melhor desempenho locomotor em torno de 36,6°C, com temperatura corporal preferencial muito próxima desse valor. Segundo os pesquisadores, isso indica ampla tolerância térmica e mecanismos fisiológicos favoráveis à sobrevivência em ambientes quentes. Apesar dessa resistência, a pesquisa aponta que o aquecimento global pode representar uma ameaça importante para a conservação da espécie, especialmente na Amazônia.

Para construir as projeções, os pesquisadores integraram dados fisiológicos do animal com variáveis ambientais, como disponibilidade de água, estabilidade térmica e tempo diário de atividade. A equipe utilizou algoritmos de alta precisão para modelar a distribuição potencial da espécie sob diferentes cenários climáticos. Quando analisadas apenas as condições ambientais disponíveis, as projeções sugerem expansão da área potencial de ocorrência do lagarto, sobretudo na Amazônia. Porém, ao incorporar limites adaptativos mais realistas — considerando que os organismos podem não tolerar condições climáticas inéditas — os modelos indicam uma possível redução de cerca de 60% das áreas adequadas para a espécie. Segundo Daniel Mesquita, o diferencial da pesquisa está na integração entre dados coletados diretamente em campo e ferramentas preditivas de alta precisão.

“O que buscamos é trazer dados reais das populações naturais para melhorar as previsões sobre os efeitos das mudanças climáticas. Muitas vezes, os modelos globais não conseguem representar adequadamente como os organismos respondem ao ambiente em escala local”, explica o pesquisador.

A pesquisa também identificou um comportamento distinto da espécie na Mata Atlântica. Nesse bioma, onde o lagarto foi recentemente registrado, os modelos apontam uma expansão potencial de aproximadamente 10% da área de ocorrência, associada ao surgimento de ambientes mais abertos. Os pesquisadores alertam, no entanto, que isso não deve ser interpretado como um benefício do desmatamento. Algumas espécies conseguem ocupar áreas degradadas, enquanto outras desaparecem, o que pode resultar em perda da biodiversidade.

“Uma espécie pode expandir sua ocorrência em ambientes alterados, mas isso não significa que o ecossistema esteja melhor. Muitas espécies mais sensíveis podem desaparecer nesse processo”, destaca Daniel Mesquita.

O estudo integra uma ampla rede colaborativa voltada à compreensão dos impactos das mudanças climáticas sobre a herpetofauna, conjunto de anfíbios e répteis. Durante expedições científicas, pesquisadores realizam inventários da fauna, monitoramento climático e testes ecofisiológicos em campo para entender como os organismos respondem às variações ambientais. Durante incursões científicas na Estação Ecológica de Maracá, situada a aproximadamente 130 quilômetros de Boa Vista, pesquisadores realizaram a coleta de mais de 400 espécimes. Na Floresta Nacional de Tefé, no Amazonas, equipes passaram 30 dias realizando amostragens padronizadas, utilizando armadilhas, buscas noturnas e monitoramento microclimático para registrar espécies e coletar dados ambientais.

Além do Cnemidophorus cryptus, o projeto estuda diversos grupos da fauna, incluindo sapos, pererecas, serpentes, lagartos e anfíbios subterrâneos raramente observados. Todo o material coletado é catalogado e depositado em coleções científicas, como as da UFPB e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), servindo de base para estudos sobre genética, ecologia, reprodução e adaptação às mudanças climáticas.

Embora pouco conhecido pelo público, o Cnemidophorus cryptus desempenha papel importante nos ecossistemas, ajudando no controle de insetos e pequenos invertebrados e servindo de alimento para outras espécies. Por depender diretamente de condições ambientais, o lagarto também funciona como um importante bioindicador climático, auxiliando cientistas a compreender os efeitos do aquecimento global sobre a biodiversidade brasileira.

***

Texto: Emanoella Alves
Edição: Helda Suene
Fotos: Daniel Mesquita/Arquivo do projeto