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Papel da quercetina como agente imunomodulador na leishmaniose visceral

publicado: 17/11/2025 09h00, última modificação: 16/11/2025 17h38
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Artigo: Quercetin enhances Amphotericin B activity and regulates ROS and cytokine production in human monocytes infected by Leishmania infantum

Publicado na revista: Cytokine - Elsevier

Ano: 2025

Autores: Leonardo Lima Cardoso, colaboradores.

Orientadora: Tatjana de Souza Lima Keesen.

 

A Leishmaniose Visceral, causada principalmente pelo parasita Leishmania infantum, representa um sério desafio de saúde pública. O parasita tem a capacidade de sobreviver e se multiplicar justamente dentro das células de defesa do hospedeiro (como monócitos e macrófagos). Os tratamentos convencionais atuais enfrentam grandes obstáculos, como alta toxicidade para o paciente, crescente resistência do parasita aos medicamentos e frequentes recaídas da doença, evidenciando a necessidade urgente de terapias inovadoras. Nesse contexto, uma abordagem que busca estimular ou modular a resposta imune do próprio paciente para combater a infecção tem ganhado força nas últimas décadas, com diversos compostos sendo testados em modelos experimentais e clínicos. Contudo, alcançar uma terapia eficaz continua sendo um desafio, pois requer um equilíbrio muito delicado: é preciso fortalecer as respostas imunes protetoras que matam o parasita, sem causar uma hiperinflamação que seja prejudicial ao organismo. Diante disso, nosso estudo avaliou o potencial da quercetina, um flavonoide natural conhecido por suas propriedades imunomoduladoras. Investigamos sua ação contra a Leishmania infantum tanto isoladamente quanto em combinação com a Anfotericina B (AmB), um dos principais medicamentos utilizados no tratamento.

Para isso, utilizamos um modelo de infecção em células de defesa humanas (monócitos), onde analisamos a viabilidade do parasita, as taxas de infecção nas células e a produção de moléculas-chave da resposta imune, como espécies reativas de oxigênio (EROs), óxido nítrico (NO) e o perfil de citocinas (os "mensageiros" químicos do sistema imune). A partir disso, nossos resultados demonstraram que a quercetina, quando usada em combinação com a AmB, potencializa a morte dos parasitas, indicando um efeito sinérgico entre os compostos. Além disso, a quercetina conseguiu reduzir a taxa de infecção dentro dos monócitos, bem como, modulou a resposta imune de forma estratégica, aumentando a produção de superóxidos, ao mesmo tempo em que reduziu os níveis de citocinas como IL-6, IL-10 e IL-17, que podem estar ligadas à manutenção da doença. Esses achados reforçam o conceito da quercetina como um agente de ação dupla, em que exerce um efeito anti-Leishmania direto e, simultaneamente, refina a resposta imune do hospedeiro, o que, sugere, portanto, seu grande potencial como um adjuvante à quimioterapia convencional no tratamento da leishmaniose visceral.

A Leishmaniose é considerada uma das mais significativas Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs) pela Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo causada por protozoários do gênero Leishmania. Por afetar primariamente populações de baixa renda que vivem em áreas de alto risco, a doença é frequentemente negligenciada pelas autoridades e, por isso, não recebe a atenção necessária para seu tratamento, diagnóstico e desenvolvimento de fármacos. A doença é considerada um sério problema de saúde pública e está presente na Ásia, Europa, África e Américas, particularmente no Brasil. Ela se manifesta nas formas cutânea (LC), mucocutânea (LMC) e visceral (LV). A leishmaniose visceral é a forma mais grave, com uma taxa de mortalidade que ultrapassa 95% quando não tratada. Além disso, estima-se que ocorram entre 50.000 e 90.000 novos casos de LV anualmente, com maior incidência no Brasil, Leste da África e Índia.

As opções de tratamento atuais para a leishmaniose permanecem limitadas e estão frequentemente associadas a toxicidade significativa e efeitos adversos. Ademais, linhagens de Leishmania resistentes aos antimoniais pentavalentes, os medicamentos de primeira linha, já foram relatadas. Como resultado, a Anfotericina B (AmB), um antifúngico de amplo espectro, é comumente usada como tratamento de segunda linha. No entanto, efeitos colaterais como hepatotoxicidade, cardiotoxicidade, hemólise e nefrotoxicidade têm sido observados com o tratamento com AmB. Assim, a busca por novas alternativas terapêuticas continua sendo um desafio para a ciência.

Nesse contexto, os flavonoides surgem como um grande grupo de compostos fenólicos naturalmente encontrados em diversos alimentos, incluindo frutas e bebidas. Eles são amplamente reconhecidos por sua vasta gama de efeitos bioativos, incluindo atividades antioxidante, antitumoral, pró-oxidativa, antimicrobiana, anti-inflamatória e antialérgica. Atividades contra Leishmania e contra o Trypanosoma cruzi (causador da doença de Chagas) também já foram relatadas para vários flavonoides. Entre os flavonoides estudados para a prevenção e tratamento de uma ampla gama de doenças inflamatórias e infecciosas, incluindo a leishmaniose, está a quercetina.  Embora a atividade anti-Leishmania direta da quercetina contra espécies de Leishmania seja conhecida, seu potencial para otimizar as terapias atuais e modular a resposta imune do hospedeiro representa uma área crítica, mas ainda pouco explorada. Modular a resposta imune do hospedeiro é tão crucial quanto a ação direta contra o parasita. Isso ocorre porque o perfil de citocinas de um paciente pode determinar a gravidade da doença, já que certas citocinas parecem estar envolvidas em sua patogênese, tornando a imunomodulação uma estratégia terapêutica importante. Isso é particularmente relevante para a Anfotericina B, um fármaco potente, mas altamente tóxico, cuja utilidade clínica poderia ser melhorada por meio de combinações sinérgicas que permitissem a redução da dose.

Portanto, este estudo foi desenhado para investigar duas hipóteses novas e clinicamente relevantes: a atividade sinérgica da quercetina com a Anfotericina B contra L. infantum e seus efeitos imunomoduladores em monócitos humanos infectados. Nosso objetivo central foi fornecer evidências do papel da quercetina como um adjuvante terapêutico, uma estratégia que poderia levar a tratamentos mais seguros e eficazes para a leishmaniose.

 Conclusões e resultados:

Nosso estudo apresenta e investiga uma abordagem terapêutica que explora a atividade sinérgica entre um fármaco já aprovado e um produto natural de baixa toxicidade. Nossos resultados demonstram que a quercetina possui atividade anti-Leishmania e apresenta efeitos sinérgicos quando combinada com a Anfotericina B. Um ponto importante é que, enquanto a quercetina não demonstrou toxicidade para as células humanas nos ensaios, a AmB se mostrou tóxica. Isso sugere que uma terapia combinada, utilizando doses reduzidas de AmB complementadas pela quercetina, poderia ser uma estratégia valiosa.

Além disso, descobrimos que a quercetina reduziu a taxa de infecção dos monócitos pela L. infantum. Em relação à produção de agentes microbicidas, a quercetina induziu uma maior liberação de espécies reativas de oxigênio nas células infectadas, não impacto na produção de EROs em células não infectadas, algo considerado bastante positivo, pois a infecção parece trazer condições moleculares que possibilitam a quercetina estimular a produção de superóxidos nocivos aos parasitas. Nossos dados também mostraram que a quercetina reduziu a produção de IL-6 e IL-10, e neutralizou o aumento de IL-17 induzido por enterotoxina B estafilocócica (SEB). Essas são citocinas-chave que podem estar envolvidas na manutenção da doença e inflamação crônica, dificultando o processo de cura.

Finalmente, nossos resultados identificam a quercetina como um agente imunomodulador e de baixa toxicidade, que atua em sinergia com a anfotericina B. Esses achados apoiam seu papel potencial em novos paradigmas terapêuticos e em estratégias de combinação que visam melhorar a segurança e a eficácia do tratamento da leishmaniose.

Autor Principal: Leonardo Lima Cardoso

Bacharel em Biotecnologia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Mestre em Farmacologia pelo PPgPNSB/UFPB. Atualmente, doutorando em Ciências Fisiológicas (PPgMCF) e vinculado ao Laboratório de Imunologia das Doenças Infecciosas (LABIDIC) do Centro de Biotecnologia (CBIOTEC) da UFPB. Atuou como monitor da disciplina de Princípios Moleculares e Celulares (PMC) durante a graduação e foi premiado com o "Prêmio Iniciação à Docência". Participou dos projetos de pesquisa de Iniciação Científica: Estudos Fotofísicos de Complexos de Íons Lantanídeos em Dispersões de Nanoargilas (2019/2020); Avaliação de Linfócitos NK e T CD8+ em pessoas saudáveis e sua importância no combate às Doenças Infecciosas Virais (2020/2021); e Avaliação da atividade Anti-Leishmania das Selenoglicolicamidas em Leishmania infantum (2021/2022). Possui interesse no estudo celular e molecular de marcadores imunológicos e mecanismos de ação de fármacos em doenças infecciosas.

Autora de correspondência: Tatjana de Souza Lima Keesen

Professora Dra. Tatjana Keesen é graduada em Odontologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (2001). Realizou mestrado (2007) e doutorado (2010) em Bioquímica e Imunologia pela Universidade Federal de Minas Gerais. Durante o período de junho de 2010 a maio de 2011 foi bolsista de pós-doutorado júnior (PDJ) pelo INCT-Doenças Tropicais. Foi professora visitante do departamento de Bioquímica da UFRN no período de setembro de 2011 a fevereiro de 2013. Atualmente é bolsista de produtividade do CNPq nível 2. Além disso, atua como professora associada do departamento de Biologia Celular e Molecular do Centro de Biotecnologia da Universidade Federal da Paraíba. É membro permanente dos programas de Pós-Graduação em Produtos Naturais e Sintéticos Bioativos, Biotecnologia/RENORBIO (Doutorado) e do Programa Multicêntrico de Pós-Graduação em Ciências Fisiológicas (CBiotec/UFPB). Atualmente é representante da câmara em Biotecnologia em Saúde do programa de pós-graduação RENORBIO. Atua na pesquisa de doenças tropicais negligenciadas, com ênfase em leishmanioses, abrangendo estudos epidemiológicos, diagnóstico, terapêutica e controle. Coordena projetos voltados à avaliação de novos compostos, desenvolvimento de metodologias e marcadores prognósticos. Especialista em caracterização celular e molecular de marcadores imunológicos relacionados às doenças infecciosas e metabólicas humana.

Apresentação do trabalho no 59º MEDTROP - Congresso da Socieda