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Mapeando a biodiversidade urbana: como a ciência cidadã contribui para o monitoramento da preguiça-comum em João Pessoa

publicado: 13/10/2026 09h00, última modificação: 08/10/2026 19h30
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Autora: Marília Carolina Pereira da Paz (Mestre em Ecologia e Monitoramento Ambiental, Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

Autor: Natan Diego Alves de Freitas (Doutorando em Ciências Biológicas, Zoologia/ Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

O avanço dos processos de urbanização transforma paisagens naturais e impõe desafios à conservação da biodiversidade. Em João Pessoa, capital paraibana inserida em um dos trechos mais ameaçados da Mata Atlântica, áreas verdes urbanas desempenham papel fundamental para a manutenção de diversas espécies. Entre elas está a preguiça-comum (Bradypus variegatus), um mamífero arborícola emblemático da fauna urbana da cidade. Além de despertar a identificação e o afeto na população, a espécie exerce um papel relevante na dinâmica ecológica dos fragmentos florestais remanescentes, configurando-se também como um importante indicador das condições ambientais desses espaços.

Compreender como a fauna responde aos processos da urbanização é fundamental para subsidiar o planejamento urbano, orientar políticas públicas e fortalecer estratégias de conservação. Nesse cenário, a ciência cidadã, que se baseia na participação ativa da sociedade na produção e compartilhamento de dados científicos, consolida-se como ferramenta estratégica para ampliar o monitoramento e qualificar o conhecimento sobre a biodiversidade urbana. Desta forma, pesquisadores analisaram os registros disponibilizados na plataforma iNaturalist, uma iniciativa global de ciência cidadã na qual usuários de todo o mundo compartilham fotografias e informações sobre espécies observadas, contribuindo para bases de dados científicas acessíveis a pesquisadores e gestores ambientais.

A pesquisa, publicada na revista Scientia Plena, foi elaborada por Natan Diego Alves de Freitas, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas do Departamento de Sistemática e Ecologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e desenvolvida no Departamento de Biodiversidad, Ecología y Evolución da Universidad Complutense de Madrid, e por Marília Carolina Pereira da Paz, pesquisadora da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq) vinculada à Divisão de Fauna da Superintendência de Administração do Meio Ambiente (SUDEMA). O estudo analisou dados acumulados ao longo de mais de duas décadas (2002–2024), reunindo registros sobre a biodiversidade urbana no município de João Pessoa, Paraíba. No período analisado, foram documentadas 8.401 observações de biodiversidade na cidade, das quais 99 correspondem à preguiça-comum. Os dados permitiram avaliar a evolução temporal dos registros, identificar áreas com maior concentração de registros e examinar o tipo de uso do solo no entorno dessas observações.

Os resultados indicaram aumento significativo no número de registros ao longo dos anos, especialmente após o período da pandemia da COVID-19, sugerindo maior engajamento da população com a natureza e com plataformas digitais de monitoramento ambiental. O crescimento no número de usuários do iNaturalist também evidencia o fortalecimento da participação da sociedade na produção do conhecimento científico. Uma análise espacial demonstrou que as observações concentram-se principalmente em grandes áreas verdes urbanas, como o Refúgio de Vida Silvestre Mata do Buraquinho, o campus I da UFPB e o Parque Zoobotânico Arruda Câmara. Esses remanescentes de mata inseridos na matriz urbana evidenciam a importância das unidades de conservação e dos fragmentos florestais para a manutenção da fauna local.

Áreas mais isoladas, como o Parque Cuiá, apresentaram apenas uma observação de preguiça registrada na plataforma iNaturalist. Esse padrão pode refletir menor esforço de registro, indicando a necessidade de ampliar o uso da ciência cidadã e incentivar a observação da biodiversidade também em fragmentos urbanos menos frequentados. Quanto ao uso do solo, as análises demonstraram que as áreas ao redor dos registros de preguiça são compostas por 37% de áreas urbanizadas e 32% de formações florestais. Esse cenário demonstra a coexistência entre cidade e natureza, mas também evidencia os desafios impostos pela fragmentação do habitat e pela expansão urbana.

Os resultados encontrados demonstram que a ciência cidadã constitui ferramenta eficaz para complementar o monitoramento da fauna em ambientes urbanos. Ao envolver a população no registro da biodiversidade, amplia-se a base de dados disponível para pesquisas e para a formulação de estratégias de conservação. Em João Pessoa, a presença da preguiça-comum em fragmentos urbanos reforça a importância da manutenção e ampliação das áreas verdes através da criação de corredores ecológicos e de um planejamento urbano alinhado aos princípios da sustentabilidade. Além de contribuir para a proteção da biodiversidade, essas áreas promovem bem-estar e fortalecem o vínculo entre sociedade e natureza.

A pesquisa evidencia o potencial científico desenvolvido na Paraíba e demonstra como a integração entre universidade, órgãos ambientais e instituições de fomento, como a Fapesq, fortalece a produção de conhecimento aplicado à gestão ambiental. Valorizar a ciência realizada no estado é também fortalecer estratégias que promovem desenvolvimento com responsabilidade socioambiental.

Currículo resumido de Natan Diego Alves de Freitas

Doutorando em Ciências Biológicas (Zoologia) na UFPB, foca em ecologia de populações e comunidades. Sua tese investiga redes eco-epidemiológicas da peste (Yersinia pestis) com séries temporais históricas. Realizou doutorado sanduíche na Universidad Complutense de Madrid (2024-2025), especializando-se em modelagem eco-epidemiológica e integração de dados de biodiversidade, saúde e clima. Tem Mestrado em Ciências Biológicas (Zoologia) pela UFPB, com foco em conservação da biodiversidade e uma só saúde. Experiência em análise espacial, sensoriamento remoto, SIG e Linguagem R. Pesquisador associado ao Laboratório de Mamíferos da UFPB, atua em curadoria de coleções biológicas e investigações de saúde pública e doenças na vida silvestre. Interesse em ecologia de doenças e divulgação científica.

Currículo resumido de Marília Carolina Pereira da Paz

Mestre em Ecologia e Monitoramento Ambiental (UFPB), licenciada em Ciências Biológicas (UFPB) e técnica em Controle Ambiental (IFPB). Bolsista pesquisadora pela Fapesq na Divisão de Fauna da SUDEMA. Possui experiência em análise de processos administrativos de licenciamento ambiental, elaboração de projetos e documentos técnicos. Desenvolve atividades voltadas ao monitoramento, mapeamento, manejo e conservação da fauna silvestre, com ênfase em ecologia urbana, avaliação do grau de ameaça de espécies e conformidade com a legislação ambiental. Possui experiência em consultoria ambiental, levantamento de fauna, extensão universitária, divulgação científica, mapeamento da biodiversidade, revisão e normalização de textos acadêmicos e documentos técnicos.