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ARTIGO CIENTÍFICO - DA CIÊNCIA PARA VOCÊ
O que as árvores e a temperatura têm a ver com os artrópodes das cidades semiáridas da Paraíba?

Autores: Rafaella Santana Santos (Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação (LEAC), Departamento de Sistemática e Ecologia, Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Arleu Barbosa Viana-Junior (Laboratório de Estudos Integrados da Biodiversidade (LEIB), Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
Co-autores: Edíson Cardoso Pinheiro-Júnior (LEIB/UEPB), Joselice da Silva Pereira (LEIB/UEPB) & Braúlio Santos Almeida (LEAC/UFPB)
Transformar áreas naturais, como florestas, em espaços agrícolas, pastagens ou urbanos é uma das principais razões para a perda de biodiversidade. O crescimento das cidades substitui os habitats naturais por superfícies de concreto e asfalto, o que dificulta a recuperação dos ecossistemas e afeta os animais que dependem desses ambientes. Por isso, cada vez mais cientistas têm se dedicado a entender como a vida nas cidades funciona e como as plantas, os animais e outros organismos interagem nesses espaços que estão sempre mudando.
A biodiversidade urbana está principalmente nos espaços verdes, como parques, praças, hortas comunitárias e árvores nas ruas. Essas árvores têm um papel superimportante, ajudando a diminuir o calor, melhorar a qualidade do ar e da água, e até a capturar carbono. Além disso, elas oferecem abrigo e comida para muitos animais, além de ajudar a conectar diferentes áreas da cidade.
Apesar de já haver bastante pesquisa sobre a vida nas cidades, ainda não entendemos bem o impacto das árvores de rua nos artrópodes (como insetos e aranhas) e em outros animais. Quando áreas verdes são substituídas por concreto, as temperaturas nas cidades aumentam, o que afeta negativamente esses organismos. Algumas pesquisas mostram que, com o aumento da temperatura, o número de abelhas diminui, enquanto moscas se adaptam melhor a ambientes urbanos mais frescos. Já as formigas têm mais diversidade em áreas com mais plantas. Em cidades mais urbanizadas, em geral, vemos uma menor diversidade de artrópodes, mas um número maior de indivíduos.
Esses padrões foram observados em cidades de clima mais ameno ou tropical. Mas o impacto da urbanização em cidades de clima quente, como as do semiárido nordestino, ainda é pouco conhecido. Nesses locais, as árvores podem criar um ambiente mais favorável para espécies adaptadas ao calor e à baixa umidade, funcionando como verdadeiros "oásis", oferecendo mais recursos e contribuindo para a redução do estresse ambiental de determinados animais.
Com isso, o objetivo deste estudo é entender como a temperatura e a quantidade de árvores afetam os artrópodes urbanos nas cidades do semiárido da Paraíba. A hipótese principal é que a temperatura é o fator que mais influencia a diversidade e a abundância desses animais, com diferentes grupos reagindo de formas distintas ao calor. Também acreditamos que a quantidade de árvores é fundamental para a manutenção da biodiversidade nos espaços urbanos.
Para testar essas hipóteses, fizemos coletas de artrópodes em 10 cidades da Paraíba, todas localizadas no bioma Caatinga. Em cada cidade, definimos quatro pontos dentro da área urbana para as amostras, garantindo uma distância mínima de 100 metros entre eles. As coletas foram feitas ao longo de 300 metros de ruas arborizadas, incluindo calçadas e canteiros centrais. Usamos a técnica de batimento, que consiste em bater nos galhos das árvores para derrubar os pequenos animais que lá vivem. No total, mapeamos 1.368 árvores nas cidades. Depois das coletas, as amostras foram armazenadas em álcool para uma análise detalhada e identificação das espécimes encontradas.
O estudo revelou uma grande diversidade de artrópodes nas árvores urbanas, com quase 23 mil indivíduos coletados, sendo 95% desses compostos por insetos e aranhas, com destaque para os besouros (Coleoptera), percevejos (Hemiptera), formigas (Hymenoptera) e aranhas (Araneae). Descobrimos que cidades com temperaturas mais amenas apresentaram maior diversidade de artrópodes. Cidades mais secas tinham mais besouros e psocópteros, enquanto nas cidades mais úmidas, os percevejos, formigas, tripes e aranhas eram mais comuns. O número de árvores também teve influência na quantidade de artrópodes, favorecendo os psocópteros, mas diminuindo a abundância de tripes.
Conclusão
O estudo demonstrou que as árvores urbanas não apenas cumprem uma função paisagística ou de fornecimento de sombra, mas são essenciais para abrigar uma grande diversidade de artrópodes, como insetos e aranhas. Esses organismos desempenham papéis importantes nos ecossistemas urbanos, como a polinização, controle de pragas e decomposição de matéria orgânica. A pesquisa também evidenciou como fatores como a temperatura e a quantidade de árvores podem influenciar a diversidade biológica nas cidades, ajudando a compreender como adaptar os ambientes urbanos para promover um equilíbrio ecológico saudável.
Essas descobertas podem fornecer subsídios para políticas públicas e estratégias de planejamento urbano mais sustentáveis. Incentivar o plantio de espécies nativas e a manutenção de árvores nas áreas urbanas pode contribuir para a criação de ambientes mais resilientes e melhorar a qualidade de vida nas cidades. Com base nos resultados do estudo, é possível planejar espaços urbanos que, além de regular o clima, favoreçam uma biodiversidade rica, beneficiando tanto a saúde humana quanto o meio ambiente.
Currículo resumido de Rafaella Santana Santos
Ecóloga, com Mestrado e Doutorado em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Atualmente, sou bolsista FAPESQ-PB/CNPq, vinculada à Universidade Federal da Paraíba (Campus I). É membro do Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação (LEAC) da Universidade Federal da Paraíba e colaboradora do Laboratório de Estudos Integrados da Biodiversidade (LEIB) da Universidade Estadual da Paraíba. Suas pesquisas são voltadas para a área de Ecologia Aplicada, com ênfase em estudos do grupo Formicidae, abordando temas como ecologia de comunidades, ecologia urbana e serviços ecossistêmicos.
Currículo resumido de Arleu Barbosa Viana-Junior
Tem formação em Ciências Biológicas, é Doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais, com Pós-doutoramento em Ecologia pelo Museu Paraense Emilio Goeldi.
Atualmente é professor visitante no Programa de Pós-graduação em Ecologia e Conservação da Universidade Estadual da Paraíba (PPGEC-UEPB) e é Coordenador do Laboratório de Estudos Integrados da Biodiversidade, além de idealizador do Projeto Artrópodes Urbanos do Semiárido.